Estudo analisou o cérebro de crianças com maior risco de desenvolver esquizofrenia para perceber se é possível detetar sinais de vulnerabilidade ainda na infância. Os resultados sugerem que diferenças cerebrais subtis podem surgir antes do aparecimento dos primeiros sintomas. A compreensão destas alterações poderá ajudar a identificar precocemente sinais de alerta e a desenvolver intervenções mais eficazes.
Nas últimas décadas, os investigadores têm procurado identificar sinais precoces de esquizofrenia antes do aparecimento dos primeiros sintomas, com o objetivo de desenvolver estratégias de deteção e intervenção mais eficazes. Contudo, a maioria dos estudos tem sido realizada em adolescentes ou adultos já considerados de alto risco, tornando difícil perceber quando surgem as primeiras alterações cerebrais associadas à vulnerabilidade para a doença.
Apesar de a hereditariedade desempenhar um papel importante no risco de desenvolver esquizofrenia, a história familiar, por si só, não permite identificar todas as pessoas vulneráveis à doença. Por isso, torna-se fundamental estudar crianças em fases mais precoces do desenvolvimento, antes do aparecimento de sintomas clínicos ou de dificuldades funcionais significativas.
Neste contexto, com o apoio da Fundação Bial, Kristin Laurens (King’s College London, Reino Unido) coordenou uma equipa internacional de investigadores que analisou o cérebro de 88 crianças, com idades entre os 9 e os 12 anos, para avaliar se é possível detetar sinais de risco ainda na infância, antes de surgirem sintomas claros de esquizofrenia.
Baseada no projeto longitudinal CHADS (Child Health and Development Study), a investigação decorreu durante quatro anos e recorreu a exames de ressonância magnética para acompanhar as alterações no volume das estruturas cerebrais analisadas. As crianças foram divididas em três grupos: um composto por crianças com múltiplos fatores precoces associados ao risco de esquizofrenia, outro por crianças com história familiar da doença e um terceiro grupo com desenvolvimento típico.
No artigo
“Trajectories of grey and white matter volume in children at elevated risk for schizophrenia”, publicado na revista científica CNS Spectrums, os autores revelam que o cérebro de crianças com fatores associados ao risco de esquizofrenia pode apresentar diferenças estruturais subtis antes mesmo do aparecimento de sintomas psicóticos ou de um diagnóstico da doença. Tanto as crianças que apresentavam múltiplos fatores precoces associados ao risco de esquizofrenia como aquelas com histórico familiar de esquizofrenia exibiram volumes globais mais elevados de substância branca no cérebro (envolvida na comunicação entre diferentes regiões do cérebro), em comparação com os seus pares com desenvolvimento típico. Este padrão manteve-se ao longo das várias avaliações, sugerindo que estas diferenças podem surgir muito cedo no desenvolvimento cerebral.
Além disso, as crianças com histórico familiar de esquizofrenia apresentaram diferenças na evolução do volume de substância cinzenta (envolvida no processamento de informação) no cérebro ao fim de dois anos de acompanhamento, embora com uma potencial tendência para a normalização ao longo do tempo. Contudo, estas diferenças na evolução do volume da substância cinzenta não se mantiveram estatisticamente significativas após correção para múltiplas comparações, sendo necessários estudos de maior dimensão para confirmar este resultado.
Embora os resultados devam ser interpretados com cautela devido à reduzida dimensão da amostra, os investigadores defendem que o estudo reforça a importância do rastreio precoce em crianças que ainda não apresentam sintomas clínicos significativos. “É fundamental estabelecer avaliações de acompanhamento sistemáticas e estratégias de intervenção personalizadas que permitam avaliar e estratificar com maior precisão o risco de desenvolvimento de esquizofrenia nestas crianças, contribuindo para um modelo de intervenção precoce mais eficaz”, sublinha Kristin Laurens.
Saiba mais sobre o projeto “194/12 - Characterising developmental trajectories of brain function from childhood into adolescence”
aqui.