Estudo analisa como os genes e a educação influenciam o sucesso socioeconómico
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Estudo analisa como os genes e a educação influenciam o sucesso socioeconómico


As políticas públicas educativas ambiciosas têm a capacidade de amortecer o papel da "lotaria genética" nas oportunidades de vida das pessoas. Esta é uma das principais conclusões de um estudo científico da Universidade Carlos III de Madrid (UC3M), da Universidade de Lausana (Suíça) e da Universidade de Estocolmo (Suécia) que analisa o impacto de uma reforma educativa na Inglaterra. Estes resultados poderão ter aplicação na conceção de futuras políticas educativas.

O artigo, publicado recentemente numa das revistas de referência no domínio da sociologia, o American Journal of Sociology, analisa em que medida os genes influenciam o sucesso educativo e financeiro, apontando que este impacto depende diretamente das políticas educativas a que as crianças estão expostas. “Especificamente, observamos que diante de uma reforma educativa como a de 1944 na Inglaterra, que instituiu a gratuitidade da educação obrigatória, o peso dos genes nos resultados socioeconómicos das pessoas foi reduzido entre um quinto e um terço de um desvio-padrão”, explica uma das autoras do trabalho, Alicia García Sierra, investigadora do Departamento de Ciências Sociais da UC3M.

O trabalho examina como a Lei da Educação de 1944 na Inglaterra (Education Act of 1944) influenciou a relação entre os genes e os resultados socioeconómicos, tais como a educação, os rendimentos e a riqueza. Especificamente, esta reforma aboliu as propinas no ensino secundário e alargou a escolaridade obrigatória, ao elevar em um ano a idade mínima para concluir os estudos. Para identificar o efeito causal desta reforma, os autores do estudo utilizaram dados provenientes do Estudo Longitudinal Inglês do Envelhecimento (English Longitudinal Study of Ageing) e aplicaram um desenho de descontinuidade de regressão, uma metodologia quase-experimental que permite estimar efeitos causais.

"A principal descoberta do nosso estudo é que a lotaria genética, ou seja, o quanto os nossos genes influenciam a nossa vida, depende do contexto socioeconómico e educativo em que uma pessoa cresce", conclui a professora da UC3M, Alicia García Sierra, que desenvolveu esta investigação na Universidade de Lausana. Segundo os dados do estudo, uma vez aplicada a reforma britânica, os genes deixaram de ter tanta importância na determinação da educação, dos rendimentos e da riqueza das pessoas ao longo da sua vida.

O trabalho mostra, além disso, que quem mais beneficiou com esta reforma educativa foram precisamente aqueles com uma menor predisposição genética para a educação. "A nossa intuição é que a reforma reduziu o quanto estes genes importavam para os resultados socioeconómicos dos estudantes porque basicamente removeu uma barreira de entrada e reduziu o nível de seleção que o sistema educativo possuía", explica Alicia García Sierra.

Barreiras familiares que persistem

Outra das revelações destacadas do estudo é que, embora a influência dos genes tenha diminuído após a reforma, a associação entre o estatuto socioeconómico dos pais e os resultados socioeconómicos dos seus filhos não sofreu alterações. Ou seja, não foram encontradas evidências de que esta relação variasse antes e depois da lei.

"Isto sugere que existem elementos transmitidos através da família que uma reforma não é capaz de mudar", aponta a investigadora da UC3M. "Factores como o facto de os estudantes de famílias com mais recursos terem maior probabilidade de frequentar atividades extracurriculares, frequentar escolas de melhor qualidade ou ter acesso a outros recursos económicos constituem vantagens da classe social familiar que uma reforma educativa isolada não consegue modificar", comenta.

Os resultados do estudo não são diretamente extrapoláveis para a situação atual, uma vez que o ensino gratuito está muito mais difundido em quase todos os países ocidentais, segundo os investigadores. A relevância do estudo reside, antes, no facto de permitir refletir sobre que outros tipos de reformas poderiam ser considerados atualmente e que elementos do sistema educativo continuam a funcionar como barreiras à entrada e à permanência dos estudantes.

Neste sentido, os investigadores salientam que certas reformas educativas focadas na qualidade do sistema (como as centradas na melhoria da qualidade do currículo ou as que continuam a garantir um acesso equitativo e gratuito) poderiam vir a ter um efeito semelhante sobre a relação entre os genes e os resultados socioeconómicos das pessoas.

Vídeo: https://youtu.be/Thq3UhBSMfY
García-Sierra, Alicia; Grätz, Michael (2026). Does Expanding Free Secondary Education Moderate the Relationship Between Genes and Socioeconomic Outcomes? Evidence from the Education Act of 1944 in England. American Journal of Sociology, Volume 131, Number 5, March 2026. https://www.journals.uchicago.edu/doi/10.1086/740030 e-Archivo da UC3M: https://hdl.handle.net/10016/50293 
Regions: Europe, Spain, North America, United States
Keywords: Society, Social Sciences, Policy - society, Humanities, Education

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