Cobras perderam hormona da fome e tornaram-se especialistas em jejum, revela investigação do CIIMAR
As cobras são conhecidas pela sua capacidade de sobreviver meses sem comer, um aspeto que intrigou cientistas de todo o mundo durante décadas. O novo estudo internacional liderado por investigadores do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR) e da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, revela que este feito extraordinário pode estar ligado à perda evolutiva de uma hormona chave que regula a fome.
O trabalho da equipa,
publicado na Royal Society Open Biology e
destacado pela revista Science, mostra que as cobras perderam o gene responsável pela produção da grelina, uma hormona que, na maioria dos vertebrados, estimula o apetite e ajuda a controlar o metabolismo energético. Esta alteração genética parece ter permitido uma profunda reorganização fisiológica que favorece o armazenamento e a utilização eficiente de energia, permitindo a estes répteis sobreviver meses sem se alimentarem.
“Este estudo demonstra como a evolução pode produzir adaptações radicais não apenas através do surgimento de novos genes, mas também pela perda estratégica de funções antigas”, explica
Rui Pinto, investigador do CIIMAR e estudante do doutoramento em Biologia da
Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP). “Ao perderem a grelina, as cobras parecem ter desenvolvido mecanismos alternativos para controlar o apetite e gerir as reservas energéticas, tornando-se verdadeiros especialistas em sobreviver a longos períodos de escassez alimentar”, acrescenta o investigador, envolvido na área da evolução metabólica e primeiro autor deste estudo.
Para os cientistas, esta descoberta ajuda a compreender melhor como os vertebrados podem adaptar-se a ambientes extremos e imprevisíveis, onde a disponibilidade de alimento é irregular.
Filipe Castro, líder do grupo de investigação em
Genética e Evolução Animal do CIIMAR e professor da FCUP, destaca o impacto mais amplo da descoberta. “Este trabalho reforça uma ideia fundamental na biologia evolutiva: perder genes pode ser tão importante quanto ganhar novos. As cobras mostram-nos como a evolução pode reconfigurar profundamente sistemas fisiológicos complexos, abrindo novas perspetivas para compreender o metabolismo energético e até doenças humanas relacionadas com o controlo do apetite e do metabolismo.”
Os investigadores sublinham que compreender estes mecanismos naturais poderá, no futuro, contribuir para novas abordagens no estudo da obesidade, diabetes e outros distúrbios metabólicos.
Ends. Media inquirires to: Eunice Sousa, Gabinete de Imagem, Comunicação e Outreach do CIIMAR
esousa@ciimar.up.pt.